outubro 18, 2007

Ele tem um cão. Uma pena o cão não ter um olho. Ilude-se, o menino, quando diz que tem um cão: é o cão que o tem, sem que ele menino saiba. Não pode saber, é só um menino que não cresce nunca.

Do alto da montanha o menino avista seus domínios. Quando se vangloria de ter, esquece que não tem nada, que só está ali bancando o conquistador porque na verdade aquele pedaço de mundo selvagem, aquela solidão imensa e confortável, permitiu que ele ali estivesse e se instalasse e se arvorasse dono e senhor. O mundo dos meninos é assim: eles querem ter, porque nascem conquistadores de terras e mares e sonhos.

Ele menino observa o lago. Então mergulha, vai fundo, quer viver ali porque este é o lugar, este é o seu instante-espaço e nunca ele menino sentiu-se tão bem quanto ali, nos limites do que chama de “seu mundo”, pertencendo, engolfado pelo prazer imenso de ter algo somente para si, e assim são os meninos como ele.

Quando o sol se põe, ele reluta em voltar para casa. Mas sabe que precisa. Há uma casa e uma rede, e seu cão o espera. Mas ele é corajoso; o vento não o assusta, tampouco o fim da luz. A certeza de que há uma casa, uma rede e um cão o guiam de volta com mão firme, ele menino e seus passos ritmados, indubitáveis, atendendo ao chamado. E o mundo de dentro de casa, o mundo do alpendre e da rede e o cão, tudo isso é o mesmo mundo do lado de fora, das árvores e dos bosques e das águas. Então, ele menino fica contente porque voltar para casa significa muito mais do que voltar para casa: também é nunca ter saído de casa.

Não é preciso ninguém. O lar de um menino é o seu castelo e este castelo em particular é protegido pelas falenas – com elas, não há o que temer. Se ele menino ficar bem quietinho, vai poder ouvir cigarras e vento e a porta que range e as janelas e os pedaços de bambu que se chocam tloc-tloc-tloc-tloc. Tudo isso ele conhece bem. Se está escuro, ele adivinha cada pedra, cada flor, e as reconstrói com detalhes em sua viva imaginação. Desse modo imaginam os meninos: tudo é mais do que real.

Sob a cama do menino não há monstros. E mesmo se houvesse, ora bolas, há o cão. Aconchegado com seus travesseiros, ele reza baixinho e pensa que não existe nada menor do que aquele lugar, porque está dentro dele. Ou então, é dentro dele menino que tem espaço demais. Por haver espaço demais, cabe castelo, lago, cão, rede e bambus que se chocam tloc-tloc-tloc-tloc. Qual será a verdade? Não tem resposta pronta; a resposta tem que vir com o sono. Embalado assim, o menino dorme sorrindo e sonha com castelos e princesas, feudos distantes, cavalos brancos, montanhas a desbravar, conquistas a fazer, a força e a coragem do menino que nos sonhos é homem e voa pelas colinas em busca de mais.

2 comentários:

paredro disse...

Se soubesse escrever, eu diria da menina que tem tanto medo das mariposas :)

Beijo Mapie.

Danielle Ribeiro disse...

... e tudo para ser seu
,sonho
"real"
e seu ...

beijos, flor

Gostei daqui ;-)