fevereiro 25, 2010




A coleção de Madalena


Com cuidado, Madalena tenta colecionar hojes. São como vagalumes (têm lampadazinhas também), porém comportam-se mal, fogem, desanimam os que tentam fixá-los. Tanta rebeldia deve-se à sua natureza de efeméride, seu perfil psicológico de dente-de-leão e um certo charme de floco ou de gota. Madalena luta, apanha-os, fica enfurecida quando um deles lhe escapa, tenta pegar o fujão pela asa e descobre que não se apanha o intangível com humildes dedos de carne. Tenta fotografá-los, mas eles são tímidos e desaparecem como um fio de fumaça diante da câmera. Tão raros, tão lindos, tão rápidos! Madalena lamenta, especialmente quando perde um hoje bem bonito, diferente dos demais.

E quando acha que não tem mais jeito, um deles resolve, por capricho, resplandescer, exibir-se por um instante, um fogo vermelho a dançar no espaço-tempo, para em seguida transfigurar-se rapidamente em ontem. Quando tem sorte, Madalena surpreende um hoje tornar-se amanhã, e sorri, e espera que haja muitos amanhãs tão lindos quanto os hojes a voejar pelo jardim.

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